Clautilde, a saga da libanesa que vivenciou bombas e terremotos

Clautilde, a saga da libanesa que vivenciou bombas e terremotos
Líbano, década de 1950: Naami e seus quatro filhos
Por: Dilmercio Daleffe

Marjayoun, Líbano, julho de 1958. Aos 14 anos, Clautilde Khalaf Rhoden escutou o ruído de bombas se aproximando da cidade. Ela então saiu de casa em busca do irmão, de 7, que buscava água em uma mina, a dez quarteirões dali. Desesperada, o encontrou no caminho. Mas a 100 metros antes de chegar à sua residência, se jogou ao chão com o menino. E viu uma bomba atingir o quintal do imóvel dos pais. Todos vivos, correu ao encontro da família. E lá observou a enorme cratera em meio ao pomar de sua mãe.

Clautilde vivenciava ali, naquele momento, a "guerra" de 1958 no Líbano, que na verdade foi uma crise política interna, com um componente religioso, que culminou numa intervenção militar dos Estados Unidos para apoiar o governo do então presidente Camille Chamoun. As tensões e conflitos levaram Chamoun a pedir ajuda externa. A intervenção americana durou cerca de três meses, terminando quando o mandato do presidente concluiu.

Os conflitos e crises no país sempre atordoaram a família de Clautilde. Traumas, como nos 20 dias em que ficaram num abrigo subterrâneo junto a outras 100 pessoas. E o terremoto sentido em 1954. Salim Khalaf, pai de Clautilde, era dono de um cassino. A grana corria solta, deixando a família bem financeiramente. Mas com as frequentes crises do país, o dinheiro desapareceu. Simplesmente, não circulava mais.

E foi por esses motivos que ele abandonou o país anos antes, 1955, para buscar alternativas no Brasil. “Ele já tinha um irmão que morava em Marialva, no Paraná. Então veio pra cá. Embora não recebesse a ajuda que precisava”, lembrou a filha. Sem o apoio do irmão, Salim rumou até São Paulo. Lá virou vendedor de roupas. Como mascate, enchia malas de roupas e vinha até o Paraná. As vendia em fazendas das regiões de Maringá e Campo Mourão. Mas o esforço era bem maior que o retorno financeiro. Cansado, buscou novas alternativas, até encontrar um arrendamento de terras na cidade de Terra Roxa.

No campo o negócio prosperava. Mas nas vendas dos produtos, não. Salim foi enganado. Entregou e não recebeu. Então, desanimou, deixando as terras. Enquanto sua luta seguia no Brasil, no Líbano, a família permanecia. Lá continuavam Naami, a esposa, e quatro filhos, incluindo Clautilde.

Mas teve um dia em que Salim apanhou um avião. E quis o destino que um temporal fizesse com que o voo terminasse em Campo Mourão. Acabou hospedado no Hotel Brasil. E perguntando na recepção sobre um amigo de infância, Saliba, que poderia ainda estar na cidade, a resposta foi certeira: sim, ele morava a poucos metros dali. Com a amizade e o apoio do conterrâneo, nunca mais deixou as terras empoeiradas.

A SAGA EM CAMPO MOURÃO

Na cidade, com grana que havia guardado, comprou um armazém na esquina da avenida Manoel Mendes de Camargo com a rua Roberto Brezezinski: o Armazém São Miguel, que pertencia ao amigo Saliba. Agora já estabelecido, mandou uma carta à esposa: “Venda a casa. Arrume as malas. Está na hora de vocês deixarem o Líbano”.

Naami vendeu o imóvel. Mas a grana não foi o suficiente às passagens dos cinco. Então um tio dela inteirou o que faltava. Foram 24 dias a bordo de um navio até o Porto de Santos. Para pagar menos na passagem, Naami alterou o nome e a data de nascimento de Clautilde que, antes disso, se chamava Clotilde. Então, quatro anos após deixar o Líbano, Salim foi recepcionar a família. “Foi muita emoção. Nós não o víamos há quatro anos. Todos choramos muito. Mas de felicidade”, lembrou Clautilde.

Juntos, a família deixou Santos, se dirigiu até São Paulo e, de lá, apanharam um ônibus até Londrina. E, a seguir, à Campo Mourão. Foram sete dias na estrada. Uma estrada sem asfalto, completamente precária, ainda mais com lama encalhando o coletivo por inúmeras vezes.

Em Campo Mourão, em 1959, a família se uniu para levar o armazém à frente. Além dos costumes, a língua foi um grande obstáculo. Um entrave amenizado com o tempo. As vendas não eram boas. Até chegar o dia em que Salim fez uma aposta certeira: ele comprou uma carga inteira de feijão preto. “Minha mãe queria matar ele. Disse que era muito feijão pra poucas pessoas comprarem", lembrou Clautilde.

Mas o que a mãe não sabia é que a produção de feijão havia sido fraca naquele ano. Ele estava escasso no mercado. Então, dias depois, somente o armazém da família é quem detinha a mercadoria para vender. E as vendas explodiram. “Nunca ganhamos tanto dinheiro na vida. Meu pai acertou em cheio. Foi tanto dinheiro entrando que sobrou até para abrir uma loja de roupas pra eu cuidar”, disse a filha de Salim.

LOJA LIBANESA

No início dos anos 60, a pedido de Clautilde, Salim aceitou abrir uma loja de confecções à filha: A Libanesa. Funcionou na avenida Capitão Índio Bandeira, próxima a Auto Peças Cometa. “Íamos para São Paulo comprar roupas e sapatos. Trazíamos tudo e, em poucos dias tudo era vendido”, relatou Clautilde. A loja durou até 1992. Na verdade Clautilde havia deixado a empresa anos antes, em 1972. É que, após se casar com o professor Assabido Rhoden, ela foi morar ao seu lado em Goioerê.

Conta ela que, ainda aos sete anos, pelos costumes de seu país, a família havia a prometido a um primo, Jorge, no Líbano. Então, quando aos 18 anos, não desejando mais deixar o Brasil, clamou ao pai que se esquecesse daquela promessa. Vendo a tristeza da filha, Salim comunicou Jorge, que foi descartado.

Com os caminhos abertos, Clautilde conheceu o alemão Assabido. Namoraram por nove meses e depois se casaram. “Ele era tudo o que eu desejava num homem. Era educado, polido, respeitador. E o mais importante: não era puteiro”, afirmou ela, rindo. Com raízes na Alemanha, a família de Assabido se estabeleceu em Saudades, em Santa Catarina. E foi lá, desde os 12, quando adentrou ao seminário. Virou padre. Mas largou a batina tempos depois.

Morando em Goioerê, já nos anos 70, conheceu Clautilde. Foi amor à primeira vista. O casal teve quatro filhos, sendo dois meninos – Carlos Alberto e Ricardo – e duas meninas, Ana Cláudia e Fernanda. Formado em filosofia, Assabido se mudou com a turma à Campo Mourão. Na cidade virou professor. E escreveu oito livros. Enquanto lecionava, Clautilde permanecia em casa. Além de cuidar dos filhos começou a fazer comida árabe por encomendas.

Clautilde reside na casa em que o casal construiu em Campo Mourão até hoje, mas sozinha. Assabido morreu em 2020. Há quem diga que o imóvel esconda um “bunker”. Este repórter conheceu o local. Apesar de estar sob a terra, Clautilde garante que não passa de sua dispensa. “Na verdade, era pra ser uma adega. Mas não deu certo”, orientou a filha de Clautilde, Fernanda. Aliás, é a única filha que continua morando na cidade. E quem continuou a gastronomia ensinada pela mãe.

Após batalhar e trazer a família do Líbano, Salim morreu em 1992, por problemas decorrentes de bronquite. Acabou pagando pelos costumes adquiridos em seu país, o fumo através do Narguile. Naami, a esposa, faleceu em 2000. Teve um infarte na cama.

Aos 81 anos, após enfrentar bombas e terremotos, Clautilde continua bem. Lúcida. Com um humor e gentilezas únicas. Dos quatro filhos de seus pais, apenas ela e outra irmã ainda vivem. E nem mesmo problemas de saúde afetam a sua esperança em dias melhores. “Em 2004 ela descobriu um aneurisma. O médico disse que ela teria apenas 18% de chances de sobreviver à cirurgia. Ela está aqui, bem, cheia de saúde”, lembrou Fernanda.


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