Lucas e o rastro de violência

Lucas e o rastro de violência
Após a chegada da polícia, os dois irmãos menores ainda não compreendiam o que havia acontecido
Por: Dilmercio Daleffe


Campo Mourão, 19 de março de 2026. Eram 6h15 da manhã quando uma menina de apenas 12 anos corria sozinha, desesperada, pelas ruas da Vila Guarujá. Ela tinha os passos apressados em direção à casa dos avós. E o desespero não era à toa. Minutos antes ela presenciara o padrasto em posse de uma faca e de um martelo, os deferindo contra sua mãe e outro irmão, de 10 anos.

Acreditando ter a família assassinada pela fúria do padrasto – a quem chamava de pai – a adolescente fugiu por uma janela e chegou à residência da avó – 3 quarteirões dali. Lá, aos prantos, informou que o homem havia matado a todos. O que ela ainda não sabia é que, mesmo sob aquele cenário de terror, todos continuavam vivos. Não é exagero dizer que foram os 300 metros mais longos de sua vida.

Maria – nome fictício da mãe da adolescente – morava em Campo Largo, região metropolitana de Curitiba há muitos anos. Lá, após se separar do pai de seus dois filhos mais velhos, conheceu Lucas, com quem passou a conviver os últimos quatro anos. E com ele teve uma menina, hoje com três de idade.

No início de 2026 a família decidiu por escolhas próprias deixar Campo Largo. Agora, com destino a outro Campo, o Mourão. Juntos, os cinco alugaram uma casa bastante simples na rua 7 da Vila Guarujá. Maria passou a trabalhar em uma loja no centro da cidade. Já Lucas fazia trabalhos como soldador. E a vida seguia normal como à tantas outras famílias.

Relatos de vizinhos indicam que Lucas demonstrava uma total falta de empatia. “Ele não cumprimentava. Não conversava. Praticamente nos ignorava”, revelou um morador local. O mesmo comportamento foi evidenciado pela delegada da Mulher, Riccielly Donha, quando tentou ouvi-lo. “Ele nada falou. Permaneceu em silêncio. E não demonstrou nenhum arrependimento do que fez. Se mostrou bastante frio”, disse ela. No entanto, já a avó revela ter visto em Lucas um homem bastante gentil. “Ele vinha em casa, pegava um café e brincava com a gente. Sorria e falava sobre a vida. Ele nos enganou. É um monstro e tem que morrer na cadeia”, afirmou ela.

De acordo com relatos da avó, as discussões do casal eram comuns. Mas nada comparado ao que viria a seguir. Naquela manhã do dia 19, segundo narrou a delegada, Lucas apanhou uma faca com uma das mãos, enquanto segurava o pescoço da companheira com a outra. Ela ainda dormia quando começou a ser agredida.

Sofreu dois golpes de faca, no ombro e na testa. E começou a gritar. A filha de 12 anos estava na cozinha. E tentou afastar o agressor, sem sucesso. Então correu e se trancou no quarto. O homem ainda tentou arrombar a porta. Ele gritava que a adolescente não escaparia. Agora, ouvindo que o irmão de 10 anos também tentou afastar o padrasto, sendo agredido por ele com um martelo, a adolescente pulou a janela e correu até a casa da avó.

A polícia foi acionada. E lá o que se viu foram cenas de horror. A agressor já havia fugido, deixando para trás rastros de uma violência jamais vista. Na cama Maria estava bastante ferida. Além das duas facadas levou vários golpes de martelo na cabeça. No chão, uma poça de sangue do menino de 10 anos, também atingido por marteladas. Após ser golpeado ele desmaiou. A aflição dos policiais aumentou após a menor, de 3 anos, pedir para que os fardados prendessem o próprio pai.

Retirados de casa, enquanto a mãe era atendida, os irmãos de 10 e 3, segurando a mão um do outro, não compreendiam o que acontecia. E ao mesmo tempo mantinham nas roupas as marcas da violência. O menino ainda tinha no rosto o sangue escorrido da cabeça, reflexo das marteladas recebidas sem nenhuma justificativa. Uma cena cruel demais.

Maria foi hospitalizada. Ela teve pelo menos duas fraturas de crânio. O menino de 10 anos também foi medicado e já está com os tios, longe de Campo Mourão. Após toda violência desencadeada pelo padrasto, a casa alugada foi retomada pelo proprietário. Toda a mobília, também com manchas de sangue, foi deixada no quintal. “Ela e os filhos não ficarão na cidade. Por causa disso a casa não era mais necessária”, explicou a avó.

FUGA E PRISÃO

Após agredir toda a família, Lucas pegou o carro e desapareceu. Mas no caminho até Ponta Porã, no Mato Grosso do Sul, já no dia 21, foi interceptado pela Polícia Rodoviária Federal. Contra ele já havia um pedido de prisão preventiva. Detido, foi levado à Campo Mourão onde permaneceu encarcerado até a última semana. Sofrendo ameaças de outros detentos a defesa optou pedir sua transferência para Guaíra. “Decidimos assim para garantir a sua integridade física”, explicou o advogado Pedro Henrique Kremer, que também vem sofrendo ameaças.

De acordo com a delegada, Lucas responderá por tentativa de feminicídio – pela companheira -, tentativa de homicídio – pelo menino, e ameaça, à menina de 12 anos. “De acordo com a vítima, Lucas forçou toda a família a entrar em seu carro antes de fugir. Isso só não aconteceu porque Maria lutou contra o mesmo. Não sabemos o que teria acontecido se eles entrassem”, relatou.

Para o advogado de Lucas seu cliente agiu por intensa emoção após descobrir uma traição da companheira. Fato negado pela própria família, que indica outros reais motivos de toda a violência – ainda em investigação por parte da Delegacia da Mulher e que corre em sigilo. “Meu cliente me confidenciou estar arrependido do que fez”, atentou Kremer.

Aos 32 anos Lucas já respondeu por roubo no estado do Mato Grosso do Sul, sendo absolvido no transcorrer do processo. Além de um comportamento, no mínimo, estranho ele carrega em um dos braços uma tatuagem de uma flecha atingindo uma bússola. Essa combinação indica a decisão de seguir o próprio caminho sozinho. Possivelmente agora, ele tenha conseguido alcançar o objetivo, sendo obrigado a conviver com as consequências de todos os seus desejos.


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